
Otto Maria Carpeaux
Augusto dos Anjos não
teve sorte na vida: parecia a personificação de uma fase especialmente infeliz
da evolução intelectual do Brasil, mistura incoerente de uma cultura ou
semicultura bacharelesca, ávida de novíssimas novidades científicas, mal
assimiladas, e dos ambientes das massas populares miseravelmente abandonadas nas
ruas estreitas do Nordeste tropical. Ninguém o compreendeu, ninguém lhe leu os
versos nos cafés superficialmente afrancesados do Rio de Janeiro, e é conhecida
a cena de um dos seus raros admiradores que leu um soneto de Augusto dos Anjos a
Olavo Bilac e recebeu a resposta desdenhosa: "É este o seu grande poeta? Fez bem
ter morrido!" Foi uma época de eclipse do sal, de trevas ao
meio-dia.
Quem salvou a fama póstuma de Augusto dos Anjos
foi seu povo, o od Nordeste e do interior do Brasil. A abundância de estranhas
expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos atraiu os
leitores semicultos que não compreenderam nada de sua poesia e ficavam, no
entanto, fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como
estavam em decomposição suas vidas. Nada menos que 31 edições do seu livro EU
dão testemunho dessa imensa popularidade que é o reverso da medalha - repeliu os
leitores exigentes, de tal modo que, até durante a fase modernista da literatura
brasileira, os versos de Augusto dos Anjos passaram por exemplos de mau gosto de
uma época superada.
Foram
alguns poucos leitores dedicados que conseguiram reivindicar e restabelecer a
verdadeira grandeza de Augusto dos Anjos: Álvaro Lins, Antônio Houaiss,
Francisco de Assis Barbosa (e, assim como nos quadros que pintou de altar de
igrajas medievais o pintor ousava colocar no último canto seu auto-retrato,
assim ouso colocar no fim dessa lista meu próprio nome). Lendo e relendo o EU,
sempre descobrimos coisas novas, estranhas e admiráveis. O mau-gosto da
expressões científicas e pseudo-científicas? Augusto dos Anjos tem o poder
extraordinário de revelar um sentido oculto nos sons dessas palavras bárbaras,
que acrescentam um novo frisson às suas visões tétricas e profundamente
comoventes. Suas rimas surpreendentes e extravagantes abrem horizontes nunca
vistos; parece-se ele com os metaphysical poets ingleses que não conhecia. Até
sabe dar sabor metafísico a nomes prórpios; e mesmo quem ignora que a casa do
Agra no Recife, no fim da ponte Buarque de Macedo, é o necrotério, sebte todo
termor da morte ameaçadora no verso: "Recife. Ponte Buarque de Macedo...",
tremor devido ao terrificante e como que definitivo ponto atrás da palavra
"Recife", censura que é a linha divisória entre a vida e o fim da
vida.
Existem em Augusto dos Anjos inúmeros casos
assim, de descoberta de um sentido novo das palavras. Nem sempre percebemos
claramente os motivos da nossa admiração. É o esclarecimento desses motivos que
devemos, agora, a Ferreira Gullar.
Sua análise estilística da poesia de Augusto
dos Anjos é precisa, sem cair jamais no jargão pseudo-científico dos
pseudo-especialistas. Tem, como ponto de partida, uma indicação exata da
situação literária do Brasil naquele tempo e como base uma análise sociológica,
não menos exata, da vida e morte e morte nordestina de que Augusto dos Anjos é o
poeta. Mas essa crítica não é só estilística nem apenas sociológica. O
permanente ponto de referência é a psicologia do poeta que deu a seu livro o
título EU. É um trabalho completo.
Também é
completo quanto às referências ao futuro. Augusto dos Anjos escreveu nas formas
parnasianas do seu tempo. Modifica-lhes o sentido pelas influências de
Baudelaire e de Cesário Verde e por algumas luzes do simbolismo. Mas preanuncia
igualmente a poesia de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto,
justamente lembrados por Ferreira Gullar.
Quando
Augusto dos Anjos morreu, o céu da poesia brasileira estava escurecido como por
trevas ao meio dia. Ninguém o reconheceu. Hoje, a literatura brasileira parece,
outra vez, escurecida por trevas. Mas quem sabe se não se encontra,
irreconhecido entre nós - ou mesmo longe de nós - o grande poeta que sabe dizer
como este povo sofre e lhe prever uma nova aurora.
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