História e memória“
Que
não se pense em acadêmicos, estudantes ou intelectuais. Não
raramente, pode-se ouvir dos mais improváveis declamadores os versos:
“Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro/de sua
última quimera.” Seja pelos temas sombrios ou pelo por vezes cômico
vocabulário cientificista, o poeta paraibano exerce um raro fascínio
sobre o leitor comum, mesmo o que não é especialmente interessado
em poesia.”
Pelo
lado materno, Augusto descende dos senhores rurais, antigos latifundiários;
e pelo lado paterno, da cultura erudita, filho de um pai de ideais abolicionistas
e republicanas, versado em letras clássicas, atualizado com a cultura
de seu tempo, leitor de “Spencer” e até de “Marx”.
O
próprio pai foi seu preceptor. Dele e de seus irmãos, ensinando-lhes
desde as primeiras letras, exames preparatórios, e, até Direito.
Em
1903, matricula-se na Faculdade de Direito de Recife. Cursou no regime
de exame vago. Augusto era o grande ausente, mas não era desconhecido
entre seus colegas. Suas primeiras poesias publicadas no “O Comércio”,
da Paraíba, despertaram a atenção. Histérico,
neurastênico, desequilibrado, era o tipo de julgamento a que Augusto
teria que se acostumar. Na Paraíba foi chamado de “Doutor Tristeza”.
Formou-se em 1907. Retornou à capital paraibana, onde lecionou Literatura
Brasileira.
Casou-se
em 1910, com Ester Fialho. Com ela, teve três filhos, sendo que o
primeiro morreu prematuramente.
Nesse
ano é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano por desentendimentos
com o governador. Decepcionado com o ambiente da Paraíba, muda-se
para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério dando aula como
professor substituto de Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil no
Ginásio Nacional e ainda dava aulas particulares em diferentes bairros.
A
juventude de Augusto dos Anjos foi passada na época de grandes escritores
e poetas, donde se tem conhecimento da expansão do movimento literário
em nosso país, onde figuras de renome tais como Olávio Bilac,
Cruz e Souza, Alberto de Oliveira, Graça Aranha (época de
lançamento do livro Os Sertões de Euclydes da Cunha), Raimundo
Corrêa, Vicente de Carvalho. E entre esses grandes nomes, que em
1912 Augusto dos Anjos lança seu único livro entitulado EU.
Entre admiradores que foram de início, poucos e críticos,
Augusto chegou fazendo muito barulho, descobrindo por fim a crítica,
que nasceu após o lançamento de sua obra, ao inovar com suas
idéias modernas, onde a tendência à morbidez, à
volúpia estranha e uma tensão quase sádica, se fazia
presente a cada poema...
Augusto
se apóia nos termos e palavras duramente científicas, e,
ao contrário dos poetas latino-americanos, não possuía
obsessão das palavras suaves e nem das vogais sempre doces. Não
foi sem motivo que ficou conhecido como o Poeta da Morte!
Augusto
era uma figura extremamente sensível, introspectivo, triste, era
capaz de açambarcar a dor de alguém e fazer dela a sua dor.
Sua figura singela, seu jeito excêntrico de pássaro molhado,
com medo da chuva, enternecia, talvez devido à sua meninice sem
encantos.
Amava
o pai, o pé de tamarindo do engenho onde nasceu, os livros... Mas
não faz alusão tropical em que vivia em nenhuma de suas poesias.
Sua instrospecção o levava a ficar horas esquecidas debaixo
do seu pé de tamarindo, a pensar, a divagar. Seria abstração?
Com que sonharia Augusto? Era como se sua alma estivesse ausente, lá
bem longe a buscar os encantos da mocidade, a buscar a felicidade que ele
não conhecia!
Augusto
dos Anjos é um poeta único em nossa literatura.
Em
1914 transferiu-se para Leopoldina, Minas Gerais, para assumir a direção
do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. Leopoldina seria para ele algo estupendo,
maravilhoso o próprio Nirvana. Depois de viver cinco meses em seu
novo lar, ele falece aos 12 de novembro de 1914, após dez dias de
sofrimento com pneumonia dupla. Ele tinha apenas 30 anos de idade. Deixou
a viúva D. Ester e os filhos Glória e Guilherme.
Em 1920 saiu a 2ª edição do “EU” graças à qual o poeta começou a penetrar os meios do leitor comum quando foram vendidos 5.500 exemplares, sendo que 3000 emapenas 15 dias. Hoje, mais de 30 edições comprovam Augusto dos Anjos como um dos grandes poetas brasileiros, patrimônio nacional.
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