Augusto dos Anjos 

    História e memória"Dificilmente um brasileiro não conhece Augusto dos Anjos.

Que não se pense em acadêmicos, estudantes ou intelectuais. Não raramente, pode-se ouvir dos mais improváveis declamadores os versos: “Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro/de sua última quimera.” Seja pelos temas sombrios ou pelo por vezes cômico vocabulário cientificista, o poeta paraibano exerce um raro fascínio sobre o leitor comum, mesmo o que não é especialmente interessado em poesia.”

Texto extraído do Jornal O Globo 04/09/94
No dia 20 de abril de 1884 um corvo gralhava, enquanto nascia o poeta Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos. Foi no Engenho Pau D’Arco, Vila do Espírito Santo na Paraíba, e o corvo na verdade era uma graúna, ave típica daqueles lados.
Nascido de uma família de proprietários de engenho, e alimentado com leite de escrava, Augusto assiste, nos primeiros anos do século XX, tempos de sua adolescência,ao mundo que o cercava ruir-se, a decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas, a crise abolicionista e a Guerra do Paraguai, conseqüentemente, o fim da monarquia.

Pelo lado materno, Augusto descende dos senhores rurais, antigos latifundiários; e pelo lado paterno, da cultura erudita, filho de um pai de ideais abolicionistas e republicanas, versado em letras clássicas, atualizado com a cultura de seu tempo, leitor de “Spencer” e até de “Marx”.

O próprio pai foi seu preceptor. Dele e de seus irmãos, ensinando-lhes desde as primeiras letras, exames preparatórios, e, até Direito.

Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito de Recife. Cursou no regime de exame vago. Augusto era o grande ausente, mas não era desconhecido entre seus colegas. Suas primeiras poesias publicadas no “O Comércio”, da Paraíba, despertaram a atenção. Histérico, neurastênico, desequilibrado, era o tipo de julgamento a que Augusto teria que se acostumar. Na Paraíba foi chamado de “Doutor Tristeza”. Formou-se em 1907. Retornou à capital paraibana, onde lecionou Literatura Brasileira.

Casou-se em 1910, com Ester Fialho. Com ela, teve três filhos, sendo que o primeiro morreu prematuramente.

Nesse ano é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano por desentendimentos com o governador. Decepcionado com o ambiente da Paraíba, muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério dando aula como professor substituto de Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil no Ginásio Nacional e ainda dava aulas particulares em diferentes bairros.

A juventude de Augusto dos Anjos foi passada na época de grandes escritores e poetas, donde se tem conhecimento da expansão do movimento literário em nosso país, onde figuras de renome tais como Olávio Bilac, Cruz e Souza, Alberto de Oliveira, Graça Aranha (época de lançamento do livro Os Sertões de Euclydes da Cunha), Raimundo Corrêa, Vicente de Carvalho. E entre esses grandes nomes, que em 1912 Augusto dos Anjos lança seu único livro entitulado EU. Entre admiradores que foram de início, poucos e críticos, Augusto chegou fazendo muito barulho, descobrindo por fim a crítica, que nasceu após o lançamento de sua obra, ao inovar com suas idéias modernas, onde a tendência à morbidez, à volúpia estranha e uma tensão quase sádica, se fazia presente a cada poema...

Augusto se apóia nos termos e palavras duramente científicas, e, ao contrário dos poetas latino-americanos, não possuía obsessão das palavras suaves e nem das vogais sempre doces. Não foi sem motivo que ficou conhecido como o Poeta da Morte!

Augusto era uma figura extremamente sensível, introspectivo, triste, era capaz de açambarcar a dor de alguém e fazer dela a sua dor. Sua figura singela, seu jeito excêntrico de pássaro molhado, com medo da chuva, enternecia, talvez devido à sua meninice sem encantos.

Amava o pai, o pé de tamarindo do engenho onde nasceu, os livros... Mas não faz alusão tropical em que vivia em nenhuma de suas poesias. Sua instrospecção o levava a ficar horas esquecidas debaixo do seu pé de tamarindo, a pensar, a divagar. Seria abstração? Com que sonharia Augusto? Era como se sua alma estivesse ausente, lá bem longe a buscar os encantos da mocidade, a buscar a felicidade que ele não conhecia!

Augusto dos Anjos é um poeta único em nossa literatura.

Em 1914 transferiu-se para Leopoldina, Minas Gerais, para assumir a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. Leopoldina seria para ele algo estupendo, maravilhoso o próprio Nirvana. Depois de viver cinco meses em seu novo lar, ele falece aos 12 de novembro de 1914, após dez dias de sofrimento com pneumonia dupla. Ele tinha apenas 30 anos de idade. Deixou a viúva D. Ester e os filhos Glória e Guilherme.

Em 1920 saiu a 2ª edição do “EU” graças à qual o poeta começou a penetrar os meios do leitor comum quando foram vendidos 5.500 exemplares, sendo que 3000 emapenas 15 dias. Hoje, mais de 30 edições comprovam Augusto dos Anjos como um dos grandes poetas brasileiros, patrimônio nacional.

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